DIREITO ECONÔMICO
"Acreditamos que eles (Shimano) se comportarão com o mesmo profissionalismo que tiveram antes da ruptura", Sílvia Lima

A Biape, distribuidora de Campinas (SP), que fazia parte dos 7 distribuidores da Shimano, até janeiro de 2015, quando foi informada pela multinacional japonesa que não mais faria a distribuição de suas partes e peças, foi ouvida pela reportagem da Revista Bicycle. Sílvia Lima, diretora corporativa do grupo paulista, falou com exclusividade sobre a decisão do Cade, que determinou a nulidade da constituição da Blue Cycle. Confira:

Revista Bicycle: Como a Biape ficou sabendo do processo no Cade?
Sílvia Lima: Primeiramente, não fazemos parte da Blue Cycle como integrante do novo grupo. A partir do momento que nós recebemos a convocação, comunicamos oficialmente ao Cade, através ao nosso departamento jurídico, que não somos integrantes de tal grupo, mas sim um ex distribuidor da Shimano. Na sequência, recebemos uma nova comunicação, a qual tivemos que responder. A partir deste momento, estava claro que se tratava de uma investigação do processo e, nessa investigação, nós respondemos um questionário com toda a documentação necessária. Não há o que dizer, é muito simples: é documentado e claro.
A partir do momento que nós respondemos, fomos novamente convocados, com um novo questionário, mais a fundo, mais apurado. Acreditamos que o Cade está fazendo um papel inédito e benéfico ao mercado. Nós não acompanhamos, porém acreditamos pelo que entendemos deste mercado, que o produto Shimano está sendo trabalhado e oferecido em um formato que não é, nem de longe, comparado ao que foi feito desde a sua constituição aqui no Brasil. Naquele momento a Shimano contou com a parceria de vários distribuidores, com grande capilaridade para que o produto atingisse uma distância de abrangência nacional. Fizemos um trabalho de investimento, tanto no auxílio aos representantes como no treinamento de vendedores e lojistas, onde a Biape participou ativamente deste processo. A diretoria da Biape (Sílvia Lima) foi uma das que sugeriu para a Shimano esta modalidade. Fábio (Takayanagi – presidente) e Daniel (Oliveira – gerente de vendas) vocês precisam treinar o Brasil. O Brasil precisa saber o que é o teu produto SIC. A Shimano então sugeriu que fizéssemos este trabalho em parceria. Por inúmeras vezes nós demos treinamento com eles. Muito do que a Shimano é hoje no Brasil se deve à parceria com os distribuidores da época.
Muitas vezes houve de nossa parte a defesa de que a Shimano deveria ter um preço sugerido, que com isso ela garantia o posicionamento do seu produto, ficando apenas a distribuição a cargo dos distribuidores.
A nosso ver, com o novo modelo de distribuição, o mercado e os clientes são os maiores prejudicados, uma vez que capacidade de distribuição atual não se compara a feita anteriormente através dos 7 distribuidores. Observamos a falta de capilaridade que existia antes, e a concentração na mão de poucos torna o produto impositivo em termos de preço o que, aos olhos do cliente, é visto de forma negativa. Preferimos citar o cliente, porque o representante vende qualquer produto. Mas nós temos que focar no mercado, o qual no momento (através de um grupo só) não está sendo abastecido adequadamente. O Cade, conhecido órgão regulador e de grande respeito, torna claro a todos envolvidos que a formação de um grupo só, para distribuição deste tipo de produto, não foi uma decisão correta e irá certamente regular isso.

Revista Bicycle: A Biape é proponente da ação?
Sílvia Lima: De forma alguma. Fomos de maneira direta surpreendidos com a busca do Cade por informações através da Biape. No primeiro contato deles fomos citados como parte integrante da Blue Cycle. Na sequência, esclarecemos ao órgão que desde janeiro de 2015, por um distrato unilateral partindo da Shimano, nos não fazíamos mais parte da lista de distribuidores. Repetimos: o distrato partiu unilateralmente por parte deles.

Revista Bicycle: Os atuais distribuidores, que constituíram a Blue Cycle, dizem que existem 110 marcas importadas no Brasil, e a maioria destas marcas é distribuída por um único distribuidor, citando inclusive que a outra marca similar de transmissão, no caso a Sram, ela também é distribuída por um único distribuidor. E que por isso não teria problema algum a constituição desta joint venture no modelo em que está. Você acredita que o mercado foi prejudicado por essa decisão que você chama de 'unilateral' da Shimano?
Sílvia Lima: A nosso ver, e com a experiência de 60 anos que possuímos, sim. Nós defendemos que todo e qualquer produto deva ser oferecido ao mercado por mais do que um distribuidor, proporcionando livre acesso e livre concorrência. Acreditamos também que tanto o mercado quanto o cliente são prejudicados, além do consumidor final que, estando no final da cadeia, não terá acesso aos produtos da Shimano.

Revista Bicycle: A decisão que motivou a nulidade da constituição desta nova empresa, diz que o mercado precisa ser comunicado através dos canais oficiais das empresas. Vocês já foram notificados após a divulgação da nota do Cade a respeito dessa nova situação de nulidade da empresa?
Sílvia Lima: Ainda não. Não possuímos um comunicado oficial pela decisão que foi tomada (em 24 de agosto). Porém, como somos parte integrante do questionamento do Cade, para nós este processo continua não só no sentido de interrogação e fornecimento de dados (quantitativos e nominais), mas também para apuração e uma compreensão mais complexa através do Cade, a nosso ver, defendendo o mercado.

Revista Bicycle: Nesta análise, a gente acredita que esta publicação se deve dar em questão de alguns dias no diário Oficial, e vocês, como antigos distribuidores vão ser notificados e como vai haver a volta ao antigo regime, e então terão novamente a possibilidade de colocar pedidos na Shimano. Sua empresa está preparada para reviravolta na situação?
Sílvia Lima: 100% preparada, tanto do ponto de vista de estrutura, de fluxo de capital, de corpo de representantes comerciais e de clientes que, por sua vez, já tem nos procurado demandando os produtos Shimano. Clientes que estão acostumados a comprar da nossa empresa gostam desse canal pois acreditam na seriedade e no comprometimento que nós possuímos com o mercado, pois ofertamos o estoque real! Os investimentos necessários para se distribuir Shimano são de larga escala. Estamos preparados para isso e apoiamos a ideia de que outras distribuidoras também estejam. Mais uma vez deixamos claro que o foco em questão é o mercado e a distribuição dos produtos Shimano. A nosso ver, o melhor a se fazer em um mercado pujante e carente destes produtos, tanto para o lojista como para o consumidor final, é ampliar os canais de distribuição através dos distribuidores que já possuem a expertise necessária no mercado.

Revista Bicycle: Falando sobre a questão mercadológica de preço, negociação, de lotes, enfim, é uma situação um pouco indigesta, porque se foi rompido um contrato e depois retomado judicialmente, mesmo que haja uma retomada disto, já não existe mais uma parceria. É uma situação delicada. Como você que vai ser o relacionamento de vocês com a Shimano nessa nova situação?
Sílvia Lima: Sempre possuímos um relacionamento extremamente profissional com nossos fornecedores, e como nós jamais tivemos a intenção de deixar de distribuir os produtos da Shimano, para nós nada mudou. A Shimano, tanto unidade Japão quanto América Latina, através dos seus representantes internos, serão sempre bem vindos, e acreditamos que se comportarão com o mesmo profissionalismo que tiveram antes da ruptura unilateral. Portanto, as portas da Biape continuam abertas.

Revista Bicycle: Você acredita que não haverá prejuízo em negociações ou favorecimento?
Sílvia Lima: Acreditamos na seriedade da Shimano para com o mercado brasileiro. Cabe a eles honrarem o nome que possuem através do comportamento que terão com os distribuidores.

Revista Bicycle: Você tem mais alguma observação a fazer com relação a esta situação, aos seus clientes. Fique à vontade.
Sílvia Lima: Nosso posicionamento, conforme havíamos mencionado anteriormente, é o de que qualquer marca que queira trabalhar no mercado brasileiro terá maior chance de sucesso distribuindo seus produtos através dos importadores e atacadistas nacionais. São eles que possuem uma equipe especializada de representantes e de tele atendimento, devidamente treinados e aptos para atender a demanda de cada cliente, em cada região. O posicionamento do Cade e o profissionalismo com que o órgão trabalha o caso vem, acima de tudo, beneficiar o mercado brasileiro. E nós, como empresa antiga e de grande respeito no mercado nacional, só podemos apoiar tanto a investigação quanto a decisão final do órgão. Para nossa empresa, a Shimano significa um leque maior de opções para oferecer ao cliente, e isso é uma honra para nós. O distrato unilateral nos leva a crer que foi uma decisão precipitada do grupo que formou este novo negócio. A nosso ver, devemos considerar o mercado, seu crescimento, a geração de empregos, a demanda e a distribuição final. Afinal, nosso desejo é de que o mercado cresça sempre almejando o melhor para o cliente.

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Veja também:
- Reviravolta no caso da criação da empresa Blue Cycle pela Shimano, Douek Participações e RR Participações

 

 
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