Revista Bicycle®
 

CicloMobilidade

 Apr 08

O SHOW EDUCATIVO DA BANDA CO2 ZERO QUE PEDALA PARA GERAR A ENERGIA DO PALCO


Projeto do Pedal Sustentável une música, tecnologia e participação do público para gerar energia limpa e promover consciência ambiental

Quando Pedro Momezo, monitor de esportes do Sesc Santo André, decidiu com sua equipe encerrar o Projeto Sesc Verão 2026 com uma feira de ciclismo, ele já tinha em mente que a parte artística do evento ? realizado no primeiro fim de semana de fevereiro ? poderia ter a presença da Banda CO2 Zero, uma banda brasileira que realiza shows sustentáveis utilizando bicicletas para gerar energia elétrica a partir da pedalada do público. A iniciativa do Pedal Sustentável une música, tecnologia e conscientização ambiental em uma experiência interativa.

?Ela casa bem com a proposta da Feira de Ciclismo, de ter uma banda tocando músicas gostosas de ouvir, de dançar se for o caso, mas em que o público pudesse se exercitar, usando a força do pedal para produzir energia para os instrumentos musicais. O fato de ser sustentável ajudou muito?, explica Momezo.

O inicio no interior

Criada em 2008 por José Carlos Armelin, a CO2 Zero surgiu da junção de várias atividades desenvolvidas por esse engenheiro eletricista de Santa Bárbara d?Oeste (SP): a atuação como professor do curso de mecatrônica no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) local, a rotina de ciclista urbano e a prática musical com amigos.

Na época, a direção da escola pediu que ele incluísse no conteúdo das aulas temas ligados ao meio ambiente e à sustentabilidade energética. Armelin decidiu fugir das tradicionais aulas expositivas e apresentou  o tema da energia renovável para os adolescentes causando surpresa ao entrar na sala pedalando uma bicicleta com a roda traseira conectada a um gerador elétrico ligado a um rádio.

?Os alunos começaram a olhar para a bicicleta e a escutar sobre sustentabilidade com mais atenção. Aí acendeu uma luz: eu tinha uma banda que tocava músicas cover e propus ao guitarrista fazer um teste com aquela bicicleta. O som foi sensacional?, relata.

Resistência inicial

Empolgado com a experiência, ele convidou outros músicos para integrar o projeto. Também passou a compor letras com mensagens sobre uso responsável dos recursos naturais e os efeitos do aquecimento global, e tentou oferecer a banda para eventos públicos de educação ambiental. No entanto, encontrou resistência.

?Na secretaria do meio ambiente diziam que não tinha a ver com eles, porque tinha bicicleta e música. Na secretaria de esportes recusaram por causa da música. E na secretaria de cultura negaram por causa da bicicleta, dizendo que era a área de esportes?, lamenta.

Parceria de sucesso

A situação mudou quando Armelin iniciou uma parceria com Filó Silva, que deu origem ao Pedal Sustentável, empresa responsável por gerir as atividades da CO2 Zero.

Mulher negra, empreendedora e com mais de 60 anos, ela possui sólida experiência como produtora cultural e de eventos corporativos em São Paulo e rapidamente percebeu o potencial do projeto.

?Ela escreveu um projeto para o Sesc dizendo: ?Olha, eu tenho algo que mistura esporte, saúde, tecnologia e música??, conta Armelin. A proposta foi aceita pela unidade Pinheiros, confirmando a viabilidade da iniciativa.

Desde então, Filó cuida da parte empresarial e artística enquanto Armelin responde pela área educativa e tecnológica. Juntos, levaram as atividades do Pedal Sustentável para unidades do Sesc em vários estados, além de eventos promovidos por empresas, organizações do terceiro setor e governos.

Projeto rodou em 10 capitais

Nos últimos dois anos, estiveram em 10 capitais do Brasil, principalmente com as atividades do Bikerama, a competição de quatro carrinhos em miniatura que correm em uma pista oficial com nove metros  de perímetro, também impulsionada pelas pedaladas do público

No total, as atividades do Pedal Sustentável alcançaram um público de 200 mil pessoas com mais de 36 mil delas pedalando para produzir aproximadamente 180 mil watt-hora de eletricidade - valor próximo ao consumo mensal médio de uma residência brasileira - ou fazer nove mil recargas de telefones celulares.

Melhorias artísticas e influência da black music

?Eu também sou cantora e ciclista?, lembra Filó, que já está pronta para subir novamente ao palco na reestreia da CO2 Zero, após alguns anos de pausa.

Para essa nova fase, ela decidiu dar um upgrade artístico ao grupo e convidou o trompetista e vocalista Reginaldo 16 Toneladas para dividir os microfones. A banda ganhou ainda um tempero de swing com o baterista Josias Isidro Junior, o guitarrista Antônio de Paula Junior e o baixista Venício Gabriel Junior, músicos que também atuam em grupos como Funk Como Le Gusta e Clube do Balanço, referências da black music paulistana.

Como muitos deles já participaram de apresentações do Bloco do Pedal, que integra o Calendário Oficial do Carnaval de Rua da cidade de São Paulo, o show da CO2 Zero agora inclui músicas de Tim Maia no repertório, garantindo a animação do público durante cerca de uma hora e meia de apresentação.

?Nós não podemos esquecer de agradecer aos amigos da formação original?, reforça Armelin, que integrou a banda como baterista junto com os amigos Kleber Vasconcelos Amedi (voz e guitarra), Maximiliano Pantano de Cillo (voz e contrabaixo) e Reginaldo Pinto de Oliveira (voz e violão). 

Inclusão e acessibilidade

Dona de uma energia contagiante, Filó também tem uma marca registrada: em todos os eventos do Pedal Sustentável, ela usa uma tiara com três óculos em formato de bicicleta, os mesmos distribuídos como brinde ao público que participa pedalando.

Nas apresentações, as pessoas se revezam em seis bicicletas para adultos e duas infantis, responsáveis por gerar cerca de 600 watt-hora de energia, suficiente para alimentar os equipamentos musicais.

Outro destaque é a presença de um monociclo adaptado para pessoas com deficiência. ?É uma bicicleta para cadeirante. Além da preocupação ambiental, cultural e de saúde, temos também um compromisso com a inclusão?, explica Filó.

O equipamento foi adaptado para ser pedalado com as mãos e movimenta um pequeno carrossel com miniaturas da banda e das bicicletas.?Até uma criança que não consegue pedalar nas bicicletas pode participar usando as mãos?, acrescenta.

Estrutura para eventos e shows sustentáveis

Segundo Armelin, a estrutura energética do Pedal Sustentável pode ser adaptada para que outras bandas e artistas utilizem o sistema

?A gente oferece ao mercado uma estrutura de energia renovável com participação do público, que pode chegar a cerca de 400 pessoas pedalando por apresentação?, afirma.

Em eventos especiais, esse número pode ser ainda maior. Em 2017, por exemplo, foram usadas 25 bicicletas para gerar a energia usada no show do cantor Lenine, realizado no Parque Villa-Lobos, em São Paulo.

A apresentação, financiada pela AES Eletropaulo com recursos da Lei ProAC, atraiu mais de mil pessoas.

Consciência ambiental: o principal impacto do show

Embora toda a energia dos shows seja gerada a partir da força humana e o projeto esteja alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e às melhores práticas do ESG, Armelin e Filó reconhecem que a iniciativa, sozinha, não resolve o problema da crise climática.

O transporte dos equipamentos, por exemplo, ainda depende de caminhões movidos a diesel. ?Ajudamos a compensar parte  dessas emissões com 400 árvores que plantamos até o momento?, afirma Armelin.

Para Filó, o principal objetivo do projeto é despertar da consciência ambiental. ?Não pense que ter uma bicicleta dessas em casa resolve sua conta de luz. O que resolve é entender que não precisamos de tanta energia. Se estou no banheiro, deixo só ele aceso. O que funciona é a conscientização?, diz.

Música e sustentabilidade: outros exemplos

Não há registro de outro grupo musical no Brasil que gere energia para seus shows a partir de bicicletas pedaladas pelo público, o que torna a CO2 Zero das primeiras iniciativas do tipo no mundo e pioneira no país. Aqui no Brasil, o exemplo mais próximo é a do trio elétrico de Carlinhos Brown, de usar painéis solares para carregar as baterias usadas pelos equipamentos durante os desfiles do Carnaval de Salvador de 2026.

A cidade também adotou medidas em busca da sustentabilidade e desde 2023 adquire créditos de carbono para compensar as emissões geradas durante a festa.

No plano internacional, há bons exemplos de bandas que passaram a adotar estratégias de mitigação ambiental.Durante a turnê Music of the Spheres World Tour, que passou pelo Brasil em 2023, o grupo Coldplay utilizou bicicletas, painéis solares e pisos que captam energia cinética do público, como parte do compromisso de reduzir em 50% as emissões de carbono em relação à turnê anterior.

Já a banda Massive Attack lançou o ACT 1.5, um guia de produção de shows sustentáveis desenvolvido com o centro de pesquisa britânico Tyndall Centre, incentivando energia limpa e transporte de baixo impacto para o público.

?A diferença deles para nós é que nós já nascemos descarbonizados e não usamos bateria nenhuma. Isso torna o show ainda mais divertido, porque se o público parar de pedalar, a energia acaba?, conclui Armelin.

Assim como o grupo inglês, Armelin esteve na COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas realizada em novembro de 2025 em Belém (PA), para onde levou um conjunto de mensagens que podem ser absorvidas facilmente pelo cidadão comum. ?

?A descarbonização começa em cada um de nós a partir do momento em que priorizamos o transporte a pé, de bicicleta ou coletivo, preferimos o etanol para abastecer o carro em vez de gasolina, plantamos árvores para sequestrar o CO2 que emitimos, procuramos consumir  produtos locais e fazemos uso responsável da água e de recursos naturais?, conclui.


Legendas das imagens:

Foto 1: (Principal) Filó divide o palco com o trompetista Reginaldo 16 Toneladas e o guitarrista Antonio Junior

Fotos: ©Divulgação


autor do artigo

da Redação

redacao@revistabicycle.com.br

Comentários

Comment Section

Nenhum comentário adicionado a este artigo

Adicionar Comentário:

Comment Section
Atenção apenas 255 caractéres



Artigos Simulares a Este

Revista Bicycle®